sexta-feira, 25 de junho de 2010

Uma menina com uma flor




E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também

que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em

Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em

lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar

porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas,

a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.

E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço,

eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada",

a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer

também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando

sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a

estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.






E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço,
e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de
vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos,
suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu
amor por você é feito de todos os amores que eu já tive,
e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei;
e que todas as mulheres que eu amei, como tristes
estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram
passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu
rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram
passando você até mim entre cantos, súplicas e
vociferações - porque você é linda, porque você é meiga
e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinícius de Moraes

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